Lifestyle Vegetariano: O planeta dá-nos sinais diários de que precisamos de mudar a nossa alimentação. Conheça um pouco mais sobre o lifestyle vegetariano e da transição da Mariana Guerra!

Se há 100 anos, os portugueses no geral, tinham uma alimentação de base Mediterrânea, hoje, a nossa alimentação é completamente ocidental com a presença diária de produtos processados e ultraprocessados, principalmente de origem animal; ingestão de quantidades superiores às necessárias de vários alimentos enquanto o consumo de outos tem vindo a diminuir.

O consumo de alguns produtos, nomeadamente de carne, surgiu tarde na evolução humana. Uma comparação feita por Colin Spencer, demonstra que se uma vida de 70 anos corresponder a toda a história da evolução humana, o consumo de carne só foi introduzido nos últimos 9 dias.

História

A Saúde e sustentabilidade são preocupações atuais, e esta alteração dos hábitos alimentares tem impacto não só na saúde como no ambiente.

Muitos falam que o vegetarianismo é uma moda, mas é uma prática antiga de muitos países, culturas e religiões sobretudo orientais. Embora a religião seja o principal motivo para a adoção de uma alimentação vegetariana no mundo, nos dias de hoje, a ética, o bem-estar animal e o ambiente têm ganho muitos adeptos, principalmente jovens.

Remontado ao passado, as comunidades caçadoras-coletoras tinham uma alimentação à base de plantas, raízes e frutos e o consumo de carne era ocasional. Só quando se tornaram sedentários, começaram a criar e domesticar animais para consumo. Desde essa altura até há poucos anos atrás, a carne era símbolo de luxo e elevado estrato social.
O povo Mediterrâneo nunca considerou a carne tão importante e essencial quanto os produtos da terra, daí que a base da alimentação mediterrânea seja plant-based.
Foi no pós-guerra que a criação intensiva em larga escala de animais de forma não humana, possibilitou o acesso deste alimento a toda a população.

Em Portugal, em 1908 é criada a Sociedade Vegetariana de Portugal e no ano seguinte a revista “O Vegetariano”. Mais recentemente, em 2006, foi fundada a Associação Vegetariana de Portugal.

A grande impulsionadora da “revolução vegetariana” foi a internet. O acesso facilitado à informação de como os animais são criados e abatidos, os benefícios de saúde e ambientais de uma alimentação plant-based, documentários, entre outros, levou a uma maior consciencialização que se traduz na mudança de hábitos alimentares.

Dados

Há 100 anos havia 3000 vegetarianos em Portugal e uma sondagem feita em 2017, apurou 120.000 vegetarianos, ou seja, o número quadruplicou face a 2007. A maioria dos vegetarianos e veganos pertencem à faixa etária dos 18-24 anos.

Contudo, o flexitarianismo é o que mais tem crescido, havendo em 2019 mais de 628.000 flexitarianos em Portugal, o que corresponde a 7,4% da população. Toda a comunidade veggie atinge os 9%. Segundo o estudo “The Green Revolution 2019”, 43% dos portugueses reduziu ou eliminou o consumo de carne vermelha face ao ano anterior e 54% reduziu ou eliminado o consumo de enchidos.

Esta alteração alimentar foi sentida pela restauração portuguesa que passou de 28 restaurantes vegan em 2008 para 172 até 2020. Inclusive, a maior cadeia de fast-food do mundo lançou em 2018 o McVegan.

De acordo com a revista Forbes, nos EUA, 2/3 dos americanos estão a reduzir o consumo de carne e no Reino Unido, a mudança para uma alimentação mais vegetal tem taxas de crescimento de 600 a 700%. Segundo relatório da GlobalData, 70% da população mundial está a transitar para uma alimentação de base vegetal.

Vantagens

Um não vegetariano consome em média, durante a vida, 11.000 animais. A produção de produtos de origem animal leva a um enorme gasto de recursos como terra e água e é responsável por uma elevadíssima emissão de gases. O estudo Livestock’s Long Shadow, realizado em 2006 pela FAO, concluiu que o consumo de carne tem mais impacto nas alterações climáticas do que todos os meios de transporte do mundo juntos.

Se todos adotássemos um lifestyle vegetariano, seria possível reduzir em 50% a emissão de gases com efeito de estufa. Se o padrão alimentar adotado fosse o vegano, então a redução seria de 73%. Há sobrepesca de 85% dos peixes, pelo que o vegetarianismo ajuda os oceanos a restaurarem-se para atingirem o equilíbrio natural.

Em termos de saúde, segundo a Universidade de Harvard, um lifestyle vegetariano reduziria 30 milhões de mortes anuais.

O Meu Padrão Alimentar e a Minha Transição

Não gosto de categorizar a minha alimentação por sentir que ainda estou num processo de transição, mas desde Janeiro de 2021 que sou ovo-lacto vegetariana (não consumo nem carne nem peixe mas como ovos e lacticínios). Em Agosto de 2019 fiz a minha primeira mudança para uma alimentação mais sustentável e um lifestyle vegetariano deixando de consumir carne. Gostava de ter uma alimentação vegana (e espero um dia conseguir) mas tenho feito a transição e uma forma gradual, para enraizar novos hábitos alimentares que possam ser duradouros.
Nunca foi tao fácil como nos dias de hoje ter uma alimentação vegetariana e, embora ainda consuma lacticínios, muitas das vezes opto por opções vegetais como bebida de soja, aveia e amêndoa e iogurtes à base de soja ou amêndoa. Quanto aos queijos, consumo sobretudo de origem animal por não encontrar nenhuma alternativa vegetal de que realmente gosto e que sejam práticos para o dia a dia. Relativamente aos ovos, deixei de os utilizar para fazer panquecas e bolos (prefiro substituir por banana esmagada ou “ovo” de linhaça) e os que consumo são biológicos (tenho a sorte da minha avó ter galinhas mas caso comprem no supermercado escolham os que têm o código 0).
As principais fontes proteicas da minha alimentação são as leguminosas – grão, feijão, lentilhas, favas e ervilhas, também consumo tofu, ovo e esporadicamente seitan.

Sendo completamente honesta, desde o dia que deixei de comer carne NUNCA tive vontade de voltar a comer, inclusive, faz-me alguma impressão ter de preparar carne, principalmente quando o animal está inteiro (ex: um coelho ou frango). Um alimento que eu raramente comia e que em situações muito esporádicas às vezes me apetece é pão com chouriço, mas tenho resistido porque acho que depois de comer me arrependeria.
O peixe eliminei mais tarde porque nunca achei que conseguisse por ser um alimento que eu adorava, nomeadamente peixe grelhado e bacalhau à lagareiro era o meu prato preferido (embora gostasse de todas as formas). Comecei por fazer o desafio vegetariano durante o mês de Janeiro e foi tão fácil que continuei até ao dia de hoje. Nas primeiras semanas procurava muitas receitas e experimentei dezenas de novos pratos à descoberta da alimentação vegetariana e acabei por descobrir novos alimentos, temperos e a cozinhar de mil e uma formas para tirar o maior proveito dos alimentos. A verdade é que sou muito mais criativa agora e sinto que a alimentação vegetariana tem combinações infinitas e é muito mais saborosa quando comparada com a minha alimentação anterior.
Sinto-me bem, nutrida e com energia porque passei a incluir mais cereais integrais, frutos gordos e sementes.

Motivo

Embora a comida fosse um assunto central no meu dia a dia e fazia questão de ter uma alimentação saudável, variada, colorida e equilibrada, nunca me debati com a questão de comermos animais. Acho que estamos formatados a achar “normal” aquilo que nos é apresentado como tal. Desde que me lembro, sempre comi carne e peixe, e por isso nunca pensei ou questionei se era certo ou errado. Eu era a pessoa que gostava de experimentar o mais exótico que havia, inclusive já comi carne de canguru e durante anos tive o estupido desejo de provar cobra.
Curiosamente, quando as pessoas se mostravam chocadas por se comer cães e gatos na China, escorpiões, larvas, sapos (eu comi na Indonésia) e outros animais, que nós portugueses, não estamos culturalmente habituados, a mim nunca me fez confusão. Carne era carne independentemente de que animal fosse e um gato não era mais importante que um porco. Assim sendo, não foi o amor pelos animais que me levou a fazer esta mudança alimentar.

A problemática das alterações climáticas sempre me foi sensível porque enquanto jovem, quero ter um planeta saudável durante largos anos para o explorar e ver todas as paisagens incríveis, oceanos coloridos e savanas povoadas de animais encantadores.
Estava ciente e informada sobre muitos dos temas transmitidos pelos mídia, mas foi depois de uma viagem ao continente asiático, onde pude ver com os meus próprios olhos e experienciar na primeira pessoa, o impacto que nós humanos, estamos a ter no planeta, que me fez repensar nos meus atos e comecei a fazer algumas pequenas mudanças como deixar de utilizar palhinhas de plástico e cotonetes.
Os incêndios florestais na Amazónia no verão de 2019 despertaram a minha atenção e quanto mais pesquisava e me informava, mais me fui apercebendo que o grande problema era o elevado consumo animal que principalmente a população ocidental faz.
Uma vez mais fui pesquisar, desta vez sobre o verdadeiro impacto ambiental da pecuária e os números foram tao chocantes que a decisão estava tomada. Não queria continuar a compactuar com a destruição dos recursos do nosso planeta, apenas para continuar a comer carne por prazer.

Desafios

Hoje, no meu dia a dia, não tenho nenhuma dificuldade por não comer carne ou peixe. Em casa sou eu que decido o que como; quando vou comer fora e posso escolher o local, opto por restaurantes com opções vegetarianas e veganas (e adoro porque é uma forma de experimentar novos ingredientes e sabores); se como fora com um grupo de pessoas alerto para as minhas restrições alimentares e normalmente uma pizzaria é uma boa opção porque todos gostam; nos restaurantes mais tradicionais costuma haver arroz de feijão ou migas de feijão frade e pedindo educadamente conseguem complementar o prato à vossa escolha e se comer em casa de amigos ou familiares, faço uma receita e levo não só para mim como para as outras pessoas provarem.
Sou também adepta da marmita e levo-a para todo o lado, quando possível.

Dicas

Na sequência da minha transição, deixo algumas dicas práticas para iniciantes:

  • Comece por fazer as segundas-feiras sem carne;
  • Introduza leguminosas como fonte proteica das refeições principais;
  • Substitua parte da carne ou peixe de uma receita por leguminosas (ex: faça um empadão de atum com metade da quantidade de atum e a outra metade de leguminosas; ao invés de carne picada com arroz faça um chili de carne com arroz, etc);
  • Substitua alguns dos alimentos que consome regularmente (ex: trocar lacticínios pelas versões vegetais);
  • Faça 2 receitas vegetarianas novas todas as semanas;
  • Quando for a um restaurante, procure um com opções vegetarianas e prove novos pratos;
  • Diminua o consumo de alimentos de origem animal aos snacks.

Resumindo…

Se está a pensar diminuir o consumo de produtos de origem animal, parabéns! Faça-o de forma gradual e sem muitas restrições. O objetivo do lifestyle vegetariano é que vá alterando os seus hábitos alimentares e que a jornada seja prazerosa.

Dê um passo de cada vez! Faça esta transição para um lifestyle vegetariano ao seu ritmo e guarde este artigo para o ajudar. Se precisar de ajuda, procure! É normal não sabermos tudo e não faz mal pedir ajuda.

Mariana Guerra

Estudante de Ciências da Nutrição

⚡ Sexta-feira: Não Perca! LIVE Talks Clevermeals sobre o Especial: Lifestyle Vegetariano 😊

Para saber mais sobre lifestyle sustentável, leia o nosso artigo Futuro A Granel.

💡 Dica: As ferramentas Clevermeals – Livro De Receitas DigitalPlano Semanal Automático e a Lista de Compras Inteligente foram desenhadas para organizar a sua alimentação. Poupa tempo, reduz o desperdício e a sua carteira e o ambiente agradecem!

banner-features-clevermeals